INICIO
- Litah Casemiro

- 30 de jan. de 2017
- 4 min de leitura

Bem...
Você não sabe, mas eu fiquei algum tempo parada com os dedos repousados sobre o teclado e olhar vidrado na tela pensando em como começar este texto. E esta é a grande questão! Não tratasse de uma crise criativa onde eu não faço ideia do que escrever, sempre está tudo aqui na minha cabeça, elas só não conseguem sair. Eu tinha um problema particular para inícios de diálogos por meio de qualquer tipo de comunicação, seja ela oral ou escrita. Inícios. Um grande tabu que foi crescendo na minha cabeça de criança e que se agravou um tanto quando comecei a adolescência.
Vejo minha reação como algo bastante exagerado para uma coisa tão cotidiana. Eu travava. E era uma trava muito maior do que não saber o que falar, eu travava com as palavras presas na garganta, ficava sem fôlego, o coração disparava e vinha uma vontade de chorar. Esse tipo de nervosismo é algo comum você deve estar pensando, sim, comum quando é causado por aquele “carinha” que você tem uma paixãozinha e você está na fase de borboletas no estomago e quando vai tentar falar com a pessoa vem aquela sensação mista de euforia/medo/insegurança e assim você trava ou quando você precisa apresentar um trabalho escolar para a classe ou quando precisa se apresentar numa entrevista de emprego, muito bem, talvez não seja novidade mas, essa trava acontecia comigo quando eu tentava começar a conversar com qualquer ser humano, em qualquer situação.
Acontecia basicamente toda vez que eu tentava começar uma conversa normal com uma colega da escola, com uma daquelas poucas amigas que eu tinha, com os meus pais, com atendente de uma lanchonete. Geralmente é difícil dar alguma noticia ruim, como: “Você está demitido!”; “Eu não gosto mais de você”; “Você tem câncer”; “ Sua mãe morreu...” Esses tipos de assuntos são delicados e difíceis para lidar se você é alguém com o mínimo de sensibilidade possível é natural ter receio e um pouco de dificuldade para passar alguma mensagem negativa para o outro.
Encontrava dificuldade em tudo, criava diversos obstáculos, muitas vezes contraditórios. O problema em alguns casos era a exposição, ter alguém prestando atenção no que eu estava falando me fazia suar frio, mesmo que eu quisesse ter a atenção naquele momento. Em outros casos era ser ignorada. Começar a falar e ninguém dar atenção, mesmo não sendo confortável quando eu era notada, eu queria ser notada. Confuso? Imagine só! Mas acredito que o problema principal era a sensação de humilhação, começar a falar e desencadear mais um episódio do que hoje é chamado de bulling. Qualquer coisa que eu dizia se voltava contra mim como uma piada muito grosseira. Costumava durar meses e eu só rezava para que no dia seguinte o assunto caísse no esquecimento. Eu era alvo de brincadeiras muito pesadas e muito frequentes. Agora o mais comum se tratando de um diálogo com os meus pais, era a negativa. Pedir alguma coisa para eles e levar um grande não no meio da cara.
Isso tudo foi ajudando a crescer de forma bem solida uma ansiedade tão brutal interferindo significativamente na minha comunicação, eu não conseguia nem mesmo dizer a coisa mais comum possível, como um “bom dia” ou um “Oi” básico para começar, passava um tempo enorme ensaiando como eu devia dizer qualquer coisa sobre qualquer assunto e qual seria a melhor ocasião para isso para evitar que eu travasse antes de começar a falar ou evitar a negativa para uma coisa que eu quisesse muito por não ter conseguido me expressar bem.
Na escola você pode evitar falar se quiser, é só adotar o papel de expectador, como fiz por quase o período escolar completo, mas sendo um ser humano ainda em responsabilidade de um adulto não dá para evitar, tenta ignorar sua mãe... A minha não era possível se você dava valor à vida! Assim quando eu queria permissão dos meus pais para fazer qualquer coisa eu passava dias ensaiando quais eram as melhores frases a serem ditas e o melhor momento. Essa condição durou um tempo muito longo, algo entre meus seis e dezoito anos.
Ingressando na faculdade tive uma melhora significativa, saindo do estado de prisioneira desses medos todos e passando a ser uma pessoa muito mais comunicativa, o grande marco dessa mudança foi o meu primeiro seminário onde havia mais de cinquenta pessoas prestando atenção no que eu estava falando, todos aqueles rostos voltados para mim, expressavam grande surpresa por depois de tantos dias de aula ser aquele momento a primeira vez que muita gente ouviu a minha voz, foi desajeitado e muito importante.
Parecia ter encontrado a cura, agora restrita apenas a situações onde cabia doses aceitáveis de ansiedade em proporções normais como qualquer outro indivíduo, o único efeito colateral disso foi tornar-me uma pessoa tida como extremamente grosseira, por que mesmo que a pessoa não esteja preparada ou interessada para ouvir o que eu tenho a dizer, passei a falar sem nenhuma preocupação com o momento, se era pertinente ou se as palavras utilizadas para a conversa eram adequadas. Talvez algumas pessoas preferissem o comportamento anterior, mas eu não ligo.
Com exceção dos meus pais, eles serão sempre a exceção do meu coração, inevitavelmente.




Comentários